17-05-2006

Uma Banda Sonora Qualquer... parte1

Portugal, Lisboa – Maio 1972

Faixa 1 – Wish you were here (Pink Floyd)
Acordei com comichão no olho esquerdo. Parecia que as pupilas estavam coladas com uma gosma de força hercúlea e que explodia qualquer resquício de visão que a ressaca tivesse deixado permanecer. Um martelo pneumático tomava o lugar do meu cérebro, remexendo os neurónios de um lado para o outro, sem que me conseguisse concentrar e entender onde estava.
Cocei o irritante olho, enquanto me espreguiçava por entre os suados lençóis cujas memórias não me traziam nada de bom. Ao virar a cabeça para um lado, descobri uma montanha de roupa que, em precário equilíbrio, fazia lembrar uma banca de mercado em início de stock. Na parede pouco iluminada pela Lua Nova estava um poster dos Rolling Stones, aquela língua vermelha, papel-químico da de Mick Jagger, amarrotado e com os cantos cobertos de fita-cola. Do outro lado, como pude confirmar após uma viragem brusca de pescoço, estava um santuário: música e mais música, um enorme forro de vinis a cobrirem aquele imenso espaço e, melhor ainda, um gira-discos.
Como se uma mola distendida me tivesse impulsionado, levantei-me com pressa, derrubando tudo o que me aparecesse no caminho e corri para realizar um culto. De pé, tremendo pelo estado de antecipação e mordendo os lábios na tentativa de ganhar algum controlo, passei os dedos pelas lombas que os discos formavam entre si, balbuciando nomes de bandas e sucessos musicais. Tirei um daquela estante, sem sequer saber o que escolhia. Tinha o olhar vidrado no futuro e a mente presa no passado.
Agarrei na superfície plástica que o cartão colorido ocultava, retirei-a com cuidado e pus o LP sobre o prato rolante. Guardei um fôlego nos meus pulmões, puxei a agulha para cima daquele calco negro e esperei…
As guitarras começaram a soar por todo o quarto, ecoando, vibrando nos recantos mais ínfimos do meu corpo. Com a voz embargada pela tua ausência, acompanhei Gilmore na tristeza:
So… so you think you can tell…

Sweet nothings

Não compreendo...
Depois de tanto remar contra a maré, parece que o Destino (ou aquela tal força superior a que não queremos dar um nome) continua a cortar-me as asas.
Oportunidades há muitas... Hipóteses outras tantas...
E, de repente, vejo-me perdida, sem saber para onde me virar, mas com a certeza que nada voltará a acontecer.
Os momentos vão passando, os anos vão passando e tudo fica na mesma.
Esse tal desejo de mudança é tão surreal (pelo menos, para mim) que nunca passo da fase de sonhar com um futuro brilhante... e esperar que o comboio que lá me levaria passe a estação final.

Joana

PS: Nas próximas semanas publicarei, neste blog, um conto da minha autoria, com o qual participei num concurso literário. Hope you like it!

11-05-2006

New Look

De vez em quando faz bem mudar.
A não ser que não tenham reparado... algo mudou.
Só eu continuo a mesma.

10-05-2006

Projectos há muitos...

E aqui estou eu com mais uma das minhas utopias...
Após trabalhar como uma radialista (para quem não sabe, é o ppl da rádio), e vendo bem como esta onda de blogs se vai multifacetando, achei interessante criar uns quantos podcasts.
Curioso?! Acreditem que me surpreendi a mim mesma...
Não tenho uma grande voz para amolecer corações ou exaltar multidões (graças a Dios), mas acho que daria uma proximidade e uma compreensão mais profunda sobre quiem, de facto, é esta FRITA.
Por isso... me aguardem... e daqui a uns tempitos, cá estará o Pilot.

Trudilu.

PS: As recomendações literárias vão continuar... não se assustem.

De certeza que não conhecem

Em altura de Semana Académica, deixo-vos aqui uma pequena pérola.
Esta banda chama-se Augustana, é formada por um grupo de rapazes americanos e tem músicas absolutamente excepcionais.
E a publicidade gratuita agradece-se, né?


podcast

Boston by Augustana

Embora pareça algo convencional no início, deixem-na tocar até ao fim, atentem à letra e deliciem-se com o gran finale.

I think I'll go to Boston... I think I'll start a new life...

26-04-2006

Untitled

Ás vezes pergunto-me se serei normal.
A resposta é sempre não...

12-04-2006

Books Club - Abril

Mesmo que o tempo passe e eu não consiga agarrá-lo (como ele acelera nestas alturas), aqui vão mais uns quantos livrinhos e, citando alguém muito conhecido:

To whom it may concern

Portugal foi um país colonizador (se bom ou mau é uma eterna discussão) e um dos maiores legados que deixou foi a Língua Portuguesa. Falada por milhões, íncompreensível por outros tantos, é na sua riqueza, na magia dos seus floreados e na «intermitência» das suas regras, que ela se demarca de todas as outras.
Nos PALOP's ainda sobrevive toda a mística que o falar e o escrever em bom português albergam. Estes autores e estas magistrais obras são meros exemplos que todos, repito, todos deviam ler, interiorizar e, quem sabe, compreender.

1. Estação das Chuvas - José Eduardo Agualusa
(Este país morreu!)
2. Mayombe - Pepetela
(Os Gorilas são homens diferentes dos outros, são mais humanos.)
3. O Fio das Missangas - Mia Couto
(Teias que a minha vida tece são eternas.)
4. Miséria e Grandeza do Amor de Benedita - João Ubaldo Ribeiro
(E que é, que se vê nesta ilha, que no mundo não tem comparação?)


Boas leituras e falem sempre Bom Português.

24-03-2006

Books Club - Março

Não precisam de fazer tiro ao alvo à minha pessoa...
Tanta promessa em relação a leituras e já estou a falhar. Mas eu sou assim...
De qualquer forma, e enquanto o bom do sol já dá um ar da sua graça, aqui vão mais umas recomendações para passarem umas quantas horas entretidos a folhear uns bons livros.

Março

O tema deste mês, em completa contradição com o «susto» que foi em Fevereiro, são Auto-Biografias. Não sei, mas acho que um pouco de megalomania nunca fez mal a ninguém, e estas autores têm mais que uma razão para se vangloriarem pelas suas vidas ímpares.
Aqui estão:

1.Confesso Que Vivi - Pablo Neruda
2.Viver Para Contá-la - Gabriel Garcia Márquez (provavelmente, a Bíblia da minha vida)
3.Memórias do Cárcere - Graciliano Ramos
4.Um Amor Feliz - David Mourão-Ferreira (opinião pessoal, porque há demasiado do autor no protagonista para não crer que ele escreveu esta obra a mirar-se ao espelho).

Sem mais de momento...
Boas leituras.

Licenças de Televisão (E esta, hein!?)

No meio de toda a polémica que a nova Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) suscitou e as preocupações que os «atentados» recentes à liberdidade de imprensa congeminaram, estão a realizar-se as atribuições das licenças de televisão aos dois canais privados generalistas - SIC e TVI. Atrasos incluídos.
Quinze anos após o primeiro licenciamento, e lembrando que o panorama televisivo português é definido pela discussão (ou não) do automatismo deste processo, é curioso ver a forma como sucede esta segunda atribuição. Exceptuando os meios académicos e os principais interessados na matéria - directores, jornalistas e pivots de meia-tigela - , não se soube do interesse de qualquer outro alguém na questão.
Se pensarmos que a crítica à (falta de) qualidade televisiva é um dos pai-nossos em cafés e sessões de corte-e-custura neste nosso Portugal, surpreende-me que ninguém comente este acontecimento. Se não discutirmos hoje (civilizadamente, se não for pedir muito) o que de mal vai nas nossas caixas mágicas, como poderemos criticar aquilo que iremos gramar nos próximos 15 anos?
A todos os interessados, e acreditem que somos todos nós, peço que visitem:
Lei da Televisão
e observem o Capítulo II. Se, tanto SIC como TVI, cumprem os requisitos aí dispostos é um mistério ainda por resolver.
Aguardo comentários e, quem sabe, talvez a nova Entidade diga qualquer coisa de jeito, em vez de manter tudo em «segredo», não vá a «justiça» tecê-las.

Joana

PS: E ainda muita tinta vai rolar sobre estas alterações sofridas pelos media nos últimos tempos... Cadê os direitos dos jornalistas?

02-03-2006

Quase


Ler em voz alta, num tom pausado... como quem não sabe de nada...

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...


Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...


Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!


De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...


Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...


Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...


Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...


............................................................
............................................................


Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...




Mário de Sá-Carneiro
Paris, 13-5-1913